Como as festas de Pré-Carnaval em Fortaleza consolidaram a capital como lugar de folia

  • 14/02/2026
(Foto: Reprodução)
Confira imagens dos primeiros anos do bloco Camaleões do Vila no Pré-Carnaval de Fortaleza Se um viajante do tempo chegasse a Fortaleza durante algum Carnaval da década de 1990, encontraria um cenário bastante diferente do atual. Com exceção da intensa atividade dos desfiles da avenida Domingos Olímpio, ele encontraria ruas quase vazias e silenciosas. Os amantes da folia estariam longe, buscando festas de outras capitais ou de outras praias do Ceará. As iniciativas de grupos de pessoas e comunidades apaixonadas pela festa em suas diversas expressões fizeram a diferença para que, atualmente, Fortaleza tenha um ciclo consolidado de eventos públicos e privados. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Ceará no WhatsApp Com eventos nas primeiras semanas do ano, blocos, baterias e cordões deram o tom do Pré-Carnaval na cidade nos últimos 20 anos. A força destes grupos foi potencializada a partir de uma política de editais fomentada pelo poder público municipal, iniciada em 2006. Agora, os esforços se voltam para fazer com que a festa cresça e atraia um público maior de foliões a cada ano. ➡️ Dados da Secretaria Municipal do Turismo de Fortaleza (Setfor) mostram que a capital espera receber aproximadamente 227 mil turistas no Ciclo Carnavalesco de 2026. Em relação às festas do ano passado, esse número representa um crescimento de 13,6%. ➡️ Segundo a Setfor, o impacto econômico direto é de R$ 833,1 milhões na economia local. Outro índice é um aumento de 8,7% no tempo de permanência dos turistas em Fortaleza durante o Carnaval. Foliões que quiseram antecipar a festa Dilson Pinheiro fundou os blocos Quem é de Bem Fica e Num Ispaia Sinão Ienche, em Fortaleza. Arquivo Pessoal Há cerca de 40 anos, Fortaleza aparecia em peças publicitárias como um destino de descanso durante o Carnaval. Na década de 1980, a capital cearense buscava atrair turistas que estivessem tentando fugir da folia, como recorda o historiador, cordelista e apresentador Dilson Pinheiro. Como relata, os investimentos do poder público eram voltados para fortalecer os carnavais das praias, como em Paracuru e Aracati. Já as propagandas sobre a capital exaltavam as praias tranquilas e um cenário para o descanso. Dilson, que já se identificava como um folião à época, não tinha oportunidade de festejar em Fortaleza e se "refugiava" em Olinda com os amigos. O cenário no Pré-Carnaval, no entanto, já era diferente. Alguns grupos levavam as festas dos clubes para as ruas da cidade, com cortejos de blocos e bandas carnavalescas. Com integrantes do bloco Enviados de Alá, que surgiu na década de 1970, Dilson formou o Bandão de Iracema. Antes de fundar o Quem é De Benfica, ele também costumava acompanhar o bloco Que Merda é Essa?, que também marcou o Pré-Carnaval da cidade nos anos 1990. Em janeiro de 1994, cerca de 12 músicos animaram o primeiro cortejo do Quem é De Bem Fica. A ideia de Dilson era fundar um bloco carnavalesco no bairro Benfica, onde ele estudou e se acostumou a beber com os amigos. “Nós saímos timidamente, o pessoal ainda meio cético, olhando assim com certa dúvida. Era pouca gente acompanhando, e a banda começou a tocar. Como não tínhamos ainda um roteiro determinado, nós coincidentemente passamos em frente a um aniversário. Pedi pra parar a banda e cantamos e tocamos os ‘parabéns’. Isso já criou uma simpatia, e por onde o bloco passava, ia arrastando mais pessoas”, recorda Dilson. Ele lembra de ter visto, ainda nesse primeiro sábado, um morador que saiu de casa para ver o que estava acontecendo na rua. Ao notar que a banda tocava músicas de Carnaval, o homem entrou apenas para vestir uma camisa e, em seguida, acompanhou o bloco. A cada fim de semana, crescia o número de pessoas frequentando o Pré-Carnaval. E um dos desafios era conter as pessoas que continuavam pelo bairro com carros de som horas depois que a programação do bloco terminava. Segundo Dilson, era difícil ter o controle em um tempo em que havia pouca conscientização sobre poluição sonora. Recebendo reclamações de alguns moradores por conta dos transtornos, ele resolveu encerrar o bloco no ano 2000. O mito da capital sem espírito folião Para questionar falas que decretavam a "morte" da folia na capital a partir da década 1970, o estudo “Carnaval de Fortaleza: tradições e mutações”, da socióloga Vanda Borges, mostrou que Fortaleza viveu uma intensa atividade de agremiações de rua neste período. A pesquisa mostra que, a partir desta década, a festa da capital passou por rápidas transformações até o ano 2000. Algumas delas foram: Década de 1970: o declínio dos carnavais dos clubes, cuja origem estava nos festejos vinculados às elites econômicas. Década de 1980: o fortalecimento da festa em cidades como Aracati, Beberibe e Camocim, enquanto políticas de cultura e turismo buscavam a interiorização do desenvolvimento econômico. Neste período, também houve crescimento das escolas de samba e agremiações no carnaval de rua e a criação dos blocos e bandas carnavalescas puxadas por setores da classe média no Pré-Carnaval. Década de 1990: surgimento do “carnaval fora de época” com as micaretas, conquistando um público massivo em festas animadas por trios elétricos. O estudo aponta uma diversificação das formas de festejar o Carnaval em Fortaleza, seja pela criação de novos grupos ou pelos eventos que foram encontrando novas datas no calendário. Artistas, jornalistas, estudantes e professores da cidade estiveram por trás dos primeiros blocos de Pré-Carnaval citados na pesquisa. Um deles foi o Periquito da Madame, lançado em 1982, buscando atrair foliões semanas antes que eles partissem para os carnavais do interior ou de outros estados. Com o sucesso do grupo, a banda passou também a se apresentar nos dias de Carnaval. Na década de 1990, outros grupos marcaram a folia da cidade, como Peru do Barão e Fuxico do Mexe-Mexe. Incentivos para a festa Bloco Num Ispaia Sinão Ienche tem atividades no Pré-Carnaval e no Carnaval de Fortaleza. Arquivo Pessoal Em Fortaleza, a política de editais com apoio financeiro para os grupos e agremiações do Pré-Carnaval foi iniciada em 2006, na gestão da ex-prefeita Luizianne Lins. “As políticas públicas foram essenciais para dar essa garantia. Não tem como fazer uma festa pública com o dinheiro do seu bolso”, comenta Dilson Pinheiro. O antigo bloco Quem é De Bem Fica não teve esse apoio financeiro. Mas a situação foi diferente com o Num Ispaia Sinão Ienche, que foi criado por Dilson em 1998 e recebe, até os dias atuais, fomento do poder público para o Pré-Carnaval e o Carnaval, com atividades no Polo da Mocinha. Ele conta que criou o novo bloco para sair apenas no Pré-Carnaval, pois ainda pretendia passar os dias de Carnaval em Olinda. No entanto, a animação dos foliões fez com que ele resolvesse ficar em Fortaleza neste período nos últimos 25 anos. A força do Pré-Carnaval animou muita gente a ficar para o Carnaval de Fortaleza, como avalia Tiago Nóbrega, presidente e fundador do bloco Camaleões do Vila. Morador da capital, ele sempre gostou de Carnaval e já viveu diversas fases: brincar nas festas das praias de Morro Branco e Presídio e também viajar para os carnavais de Olinda e Rio de Janeiro. “Já tem uns dez anos que eu fico em Fortaleza. A gente é entusiasta do Carnaval de Fortaleza e vê um crescimento notório, ano a ano. Eu tenho dois bares, um deles já tem 17 anos. A gente não abria essas casas antes. E, há uns oito anos, a gente abre todo Carnaval, é um movimento bom. O movimento do Carnaval vem crescendo”, comenta Tiago. O bloco Camaleões do Vila surgiu da sugestão de clientes dos bares, que viram que outras baterias de escolas de samba da cidade, como Unidos da Cachorra e Baqueta, já viviam em um momento forte do Pré-Carnaval, no ano de 2010. O primeiro desfile do bloco veio em 2011, quando o percurso saía das proximidades do Dragão do Mar e seguia até o Aterro da Praia de Iracema. Além de levar desfiles para as ruas, o bloco funciona como uma escola de instrumentos de percussão. Atualmente, a bateria do Camaleões do Vila é uma atração tradicional do Pré-Carnaval de Fortaleza, também contemplada por editais de fomento e com apresentações na orla da Praia de Iracema durante os sábados. ➡️ Segundo dados da Secretaria Municipal da Cultura (Secultfor), o Edital de Blocos e Agremiações do Ciclo Carnavalesco 2026 selecionou 96 projetos, com um investimento total de R$ 2,4 milhões distribuído entre blocos de rua adultos e infantis, blocos de palco, baterias e grupos do desfile da avenida Domingos Olímpio. Pré-carnaval de Fortaleza. Fabiane de Paula/SVM “A gente acredita muito nessa política pública. É com esse fomento da iniciativa pública que a nossa festa vem crescendo. É óbvio que precisa de melhorias, como tudo na vida. Mas a gente vê como muito bom o apoio atual”, avalia Tiago Nóbrega. Um dos avanços que o presidente destacou também foi a participação de um fórum consultivo da Secultfor, reunindo representantes do Ciclo Carnavalesco. O espaço foi criado para discutir propostas e sugestões para a festa na cidade, com oito encontros entre março e agosto de 2025. Aperfeiçoamento da folia Conforme Tiago, um dos objetivos do Camaleões do Vila é conseguir consolidar os dias de cortejo para as baterias também nos dias de Carnaval. Na opinião do fundador do bloco, a festa em Fortaleza acerta ao descentralizar as atrações em diversos polos da cidade. Com isso, ele aponta que o Ciclo Carnavalesco continua apostando na diversidade de públicos, com opções para curtir na rua, nos shows de artistas locais e nacionais, nas programações infantis e nos estabelecimentos privados. Para melhorar a experiência dos foliões e atrair mais turistas, Fortaleza deve manter as diretrizes do trabalho voltado para o ciclo de festas, tendo avançado em diálogo e organização, conforme a avaliação de Matheus Freire, mestre de bateria do bloco Baqueta Clube de Ritmistas. Confira imagens do desfile do bloco Baqueta no Pré-Carnaval de Fortaleza Matheus tinha dez anos quando a bateria colocou o seu primeiro desfile na rua, em 2010, sob a condução do pai dele, Carlos Henrique Benevides. Na época, o grupo ainda se chamava Bloco Amicis. Tudo começou quando Carlos, que ajudava a organizar e dirigir outras baterias em Fortaleza, resolveu fundar a primeira escola e clube de ritmistas em Fortaleza. “A gente não surge como bloco, a gente surge como escola de percussão em 2007, dentro da [bateria] Unidos da Cachorra. O Baqueta era a escolinha de percussão do bloco da Cachorra”, conta Matheus. Atualmente, o Baqueta leva cerca de 600 integrantes para os desfiles com sete alas: marcação, caixa, repique, tamborim, agogô, cuíca e chocalho. Matheus considera que o bloco está inserido em uma festa já consolidada no calendário da cidade graças ao fomento do poder público e ao movimento puxado pela iniciativa privada, também com eventos de Pré-Carnaval já fixos no início do ano. “Se você tem um incentivo e organização, se tem esse fomento, isso é trabalhado o ano inteiro. O Baqueta, por exemplo, não tem intervalo. No final de fevereiro ou em março, já volta tudo ao normal, as aulas já começam. E eu acho que trabalhar essa festa durante o ano todo ajudou bastante a movimentar o cenário cultural do Carnaval”, comenta Matheus. Para isso, uma das apostas é em profissionalizar as atividades do bloco, mantendo uma estrutura própria de estúdio para o ensino de percussão de samba e criando um repertório que transita entre o samba-enredo, samba de roda, axé, forró e até o brega. Além do período carnavalesco, o bloco se apresenta em eventos de outras datas comemorativas e em celebrações privadas, levando a energia do Carnaval durante o ano inteiro. Assista aos vídeos mais vistos do Ceará:

FONTE: https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2026/02/14/como-as-festas-de-pre-carnaval-em-fortaleza-consolidaram-a-capital-como-lugar-de-folia.ghtml


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